segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Ela caminhava, como quem
Se afoga e pede ajuda.
Nos pés, a pressa;
No corpo, a culpa
Pelos dedos alheios que
Passearam à toa
Pelas curvas.

Ela procurava um salvador,
Alguém que a resgatasse
De oceanos ruídos...

As horas vãs, os tempos idos,
O ócio ébrio escondem
O perfume do erro,
O cheiro do soluço,
Pedindo que cerrem
As portas e as janelas
Para que o rubor se dilua.

Foi um breve tropeço,
Trepidar efêmero
De recaída!

Mas agora lhe parece isso:
Encarnar a alma de perdida

-Uma das que adornam a rua.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não consigo guardar meus papéis e sentimentos
Em pequenos compartimentos subjetivos isolados...
Eu não caibo na fôrma das relações sociais.
Minha energia está em constante expansão, e
Eu quebro a casca a cada momento.
Metamorfases.

De letras e vozes
Projetivos de humores
Eu redijo a implosão
De cores que se dá
E a percussão
Que reverbera,
Repercute,
Em cada célula, cada
Átomo -
Deste parágrafo.

Os passos descuidam do pó
De lembranças amareladas, envelhecidas,
Escondidas em um baú no sótão.
Eu parto
- Da onipresença da história
- Uma série de novas vidas caninas

Sete
Lambendo as feridas
Com olhos hipnóticos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A eternidade das lembranças,
Lilazes luzes fosforecentes
Em momentos de paz vergou seus ombros.
Nas lentes, canções que murmuram,
Vomitam a própria mente
Em espaços periódicos e diferidos.

O planejamento do futuro ocupa todas
As horas de momento, todo o mel de aveias
Sem sabor absorvido.
As expectativas anulam o que dás
Com um gesto displicente.
Eu acalanto os desafios, as mãos cheias
De vazios a serem preenchidos
Quando em quando.

Estou na sede, no suor e na súplica
Que expira o aço e o concreto:
a liberdade de uma postura,
Uma tensão na coluna
Ou palavras ditas abaixo do grito.
Há guerra nas batidas, nos latidos rítmicos,

Uma poesia perdida, que peculiar hipnotiza
Como as meninas decadentes da esquina.
Nada mais é justo, verdadeiro ou certo
Que o há de ser, o muito provavelmente.
O agora já desbota, dura por quase um segundo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O pedaço da pele que eu te dei
É um grão de areia que se perde
Quando na palma da mão,
Como vaga de encontro à praia:
Por maior a necessidade,
A urgência do afastamento,
Mais como um ímã eu retorno
Calorosa e suplicante, absorvida
No teu peso oceano.
Mais nem uma palavra vale,
Evidência do engano.
Deixo o choque gozar
A comunhão que, cálida,
Oculta a verdade irmã.

Cada lágrima de certeza
É uma gota de vinho extraída
Intermitente das minhas veias.
Os sinais que se revelam
Favorecem o costume,
Mas não reparam tua ausência ébria.
Dionisíaca.
A escuridão solitária que presencia
Os sons e os momentos reconstrói o êxtase,
Saudoso como o porto
No crepúsculo da ressaca.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Todas as luzes acesas
Em lágrimas que se partem,
Nos dedos que se prolongam,
Lânguidos...
A série de distâncias
Distintas entre os segundos de luzes
De lágrimas é como
Mais uma flor no túmulo:

Adeus. Partida.

O que nos separa é uma barreira de compreensão,
A distância de línguas faladas que
Parcamente se calam nos poros,
Nas peles.

A morte de almas não é dirimida ,
Mas celerada pela violência do amor bruto.
Não se fala, porque os gritos são mudos.

Os soluços reverberam,
Prolongam o prelúdio do fim.
Nos abraços, o aprisionamento da identidade.
Nos beijos, a invasão violenta.
Não se fala, porque os ouvidos são surdos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ele vivia, comia, lia, escrevia
E lhe bastava -
Como ilha.

Pra quê construir uma incerteza
nunca dirimida, uma questão nunca solucionada?
A alteridade é um mistério

E assusta
Como o percurso da rua
Para além da beira que
lhe banha.

A simples segurança de si mesmo
Mantinha o caminho
Nos conformes.
Inatingível, a ordem reinava.

Mas à espreita, a sombra,
O sopro da falta recrudescia
A cada agressão.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Banhar-se de palavras,
Melodias,
Sensações
Que se ocultam em sinais discretos...

A senha?
Tatuada no meu rosto,
No resto de dignidade
Que me deixaste.

Mas, de consciência limpa,
Lanço a sorte sobre os nervos
e rezo - não reflito;

Assim retenho
A atmosfera
E o exorcismo de idéias...

Assim a torrente de abstrações
Me possui sem hesitar.


Claro como açúcar.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sou toda feita de matéria oca,
Pele e pêlos, a superfície;
Quem procura amor, encontra uma boca
Como se pela retina um túmulo visse.

Há quem o perceba? Ora, tolice!
Como se, vulnerável a qualquer melindre,
Não planejasse uma fuga, consumisse
O sangue do meu próprio ventre.

Encerra-me em ti
Como se carregasse um ímã,
Pois não mais quero regar o outono!

Reservo um passado diáfano,
Que relega ao presente a promessa vã:
Uma vez se chora, outra se ri.

domingo, 31 de agosto de 2008

Queria ser raiz,
Bracejar na fecunda terra
De amor como sempre faz
O açaizeiro às segundas-feiras.
A cortina indolente de lágrimas
Celestes me poria nos braços,
Enquanto a gente cinza
Enxugaria as vestes!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

São todos iguais...
Todos os rostos, todos os beijos
Que me marcam os cabelos!
Não há mais

Expiração na minha pele,
Teus sonhos no meu travesseiro...
A chuva da sesta varreu nele
Cada hora, cada cheiro

Que se permeia na memória.
Ficam os rios lodosos, turvos, impuros
Dejetos da efêmera fertilidade.

Com fervor desejo a glória
De inundar dor e ciúme o orgulho,
Filho bastardo da tempestade.


Ou da saudade.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Aconteceu.
O sinal mudou, e eu não pedi!

Enquanto eu me distraía
Lavando pecados,
Invadiste minha propriedade
Sem bater, nem pedir licença...
Encontraste minha alma nua
E desprezaste planos, requisitos
De um sonho construído.

Passada a surpresa,
A cruel realidade
Deixa a luz acesa.
Tímida, cubro-me de escrúpulos
E digo:
Sabes, agora sou tua.

De dia, a irmã.
De noite, o incesto.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Dá-me um minuto,
Uma meia certeza do que
Em êxtase exclamaste aqui!
Eu guardo isso no teu hálito,

Na tua caneta sem tinta
Que rejeitou meus versos...
A cada instante, disperso,
É como se previsse extinta

A nossa comunhão, nossa partilha
De momentos, que cedo ou tarde
Seria uma lembrança querida...

É esse maldito tempo que combate
A permanência do teu corpo na vida,
O teu resquício de alma que me valha.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ela não quer a gentileza
Das tuas mãos cavalheiras. Cadê
a resposta que prometeste
Sem saber?
Onde estão os sacrifícios que ela espera
Em angústia?

Ninguém se permite amar sem
Uma esperança exigente...

Fazemos um teste -
Neste texto:

Estás obrigado. És devedor.
Amante inadimplente
Sem cláusula de rescisão!
Vais pagar em juízo
(ou sem ele, de preferência).

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A sobriedade me dá a certeza de que não sou o que devia (ou gostaria de) ser.

Eu poderia plantar facetas, cultivar aspectos de uma personalidade única. Ler, ver, saber mais. Atingir a singularidade tranquila. Mas eu sei que nunca vou abranger o conhecimento infinito, e isso seria aceitável se o comum fosse suficiente.

Assim como muitos, eu almejo valores do senso comum - instituições notoriamente falidas mas mantidas pela fé e pelo hábito. Mas quem não tiver o mínimo de autoconsciência - ou seria autocrítica? - nunca aceitaria ser mais um boi no pasto, um código de barras, um produto de fabricação em série. A existência transitória que não deixa marcas não será relevante ou contributiva em nenhum aspecto.

A sensação de desprezo em aceitar ser a média, ser razoável, ser comum é tão patente que me fere todos os dias. E nessa angústia, nesse dilema entre o comum e o único, entre ser como todos e ser única, eu não sou NADA. Eu não existo.

Abstraio a idéia do ser, a situo em um canto escuro de mim. Bastar, é isso. Não sou menor nem maior, porque EU NÃO SOU. O meu sentido está em desprezar as conquistas e enaltecer os desafios. Por isso o que eu tenho, e o que me tornei NÃO É NADA.

Por outro lado, o que almejo e o que virei a ser é um paradigma. Acredito ser por isso extremamente necessário me ocupar pelo máximo de tempo possível. Assim não há espaço no meu dia para refletir sobre a minha insignificância e o meu fracasso em ser pessoa. Não fui capaz de sê-lo. Talvez um espírito em potencial, mas sempre em potencial. Nunca completo.

Não consigo construir personalidades para preencher meu vazio existencial, e muito menos aceito um modelo pré-concebido - no máximo, o empresto ocasionalmente.

Acabo sendo eternamente um zero, por desejar tão intensamente o infinito. Zero não é número.

Eu não gostaria de ser dirigida pela estupidez da mecânica, mas é ela que me mantém sã. Eu não amo nem odeio a vida, porque dela não faço parte. O que tenho são arremedos de momentos repetidos e continuados, como uma fita que acaba e é novamente reproduzida. Sempre a mesma sucessão de acontecimentos vazios, mas infinitos. Impessoais, mas necessários à ilusão de existência.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Eu vejo o teu nome nas placas das ruas,
Teu rosto nas lentes que te observam ávidas, como que espectadora passiva...
Não escuto há tanto os teus ruídos, teus humores!

Acompanho de longe teu crescimento e perco teus primeiros passos...

Pra quê contar as horas que faltam pra te esquecer,
Se isso só resgata a dor da ausência?

terça-feira, 1 de julho de 2008

Eu quero enfrentar as contradições
Não com palavras, mas pensamentos
que se redijam nos olhos...
Me olha de frente, medo!
Não aguento mais a sombra,
à espreita, à espera da
Fragilidade do presente.
O que me presenteia é o
que me dizem, o que me
contam os que viveram.

Os que viveram?
Os que vivem até
Hoje nas transformações,
nas revoluções, nas guerras, em mim...
Em mim, e não no mundo!
Que pena.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Os efeitos da negligência uma hora surgem
E perturbam a quietude de uma alma
Imprudente...
E imatura.

Os horários me atordoam!
A espera é incessante e eu me perco nos planos
De amanhã, sempre amanhã, hoje não dá mais,
Não cabe. Não cabe.

Os teus beijos cabiam na palma da mão, disso eu lembro.
Hoje cabem no ouvido os urros da tua indiferença,
Do teu sem ti tanto faz,
E eu espero que a distância possa secar as lágrimas

No travesseiro,
No chuveiro,
Nas palavras,
No almoço,
Nas provas,
No trabalho,
No bar,
Na terrinha,

Em mim.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

As horas que correm nos meus pulsos
Vermelhos, vivos, são as que estiveste
Sobre mim, em mim... o amor que possuo
Te chamou, te levou as vestes

E refletiu notas impressas de segredo:
A dor física da tua ausência,
A recordação da carícia brejeira dos teus dedos...
Todos os sorrisos que a lembrança vivencia

E protege num recanto seguro,
Consumindo-o com parcimônia
Para permear a sensação.

Da economia, no entanto, se envergonha
A sabedoria; quanto mais apuro
As notas com mais rapidez me deixarão.

terça-feira, 3 de junho de 2008

No roteiro desejado de vida
Não cabem planos de sonho...
O descanso dos meus projetos trepida
ante à preguiça, ao ronronar
da consciência adormecida.

Mais cinco minutos, mais cinco anos de
Paz sem prazos, de fé sem férias,
de amor sem hora para despertar!

O alarmante tique do relógio,
Contudo, alerta, inexorável:
"Estás atrasado!
O mundo não pára aos teus caprichos,
As horas não estacam para curar teus vícios!
O trabalho se perde, os livros abandonados!
No roteiro desejado de vida
Não cabem planos de sonho."

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O fim dos dias é como lava,
Como luva nas tuas mãos macias:
Arrasta calor da minha mágoa,
Encaixa-se perfeitamente no meu dia

Escuro... sempre um pedaço,
Um retalho do que devia
Ter sido seguir teus passos!
Eu não pude ver que amanhecia

Até te perder...
A cada música, a cada palavra
A noite era a tua chegada.

Então por um triz, por um flerte,
Era o teu ódio que falava,
Era o início da madrugada.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Canto pio de clamor fugaz
Embebe meu suor na tua saliva
Seduz a cadência de que me priva
Penetra o caminho que me faz

Ser tua! Pois se num canto encerro
Orgulho, companheiro constante,
Te posso venerar como amante
Sem lamentar futuro erro.

Nada mais ser, nada mais sentir
Que a própria fome em um olhar calado,
Um roçar de pele que me endoidece!

Destino e dever, numa noite, posto de lado
Para que eu encontre Deus dentro de ti,
Gritando em êxtase a última prece!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Me abandona aos poucos, sublima
a esperança de te ver na esquina
da rua, teu caminho de perdão
construído pelo desejo... não

Pela sábia e idosa consciência
De que a portas cerradas significo
obra... ao passo que és capítulo
Do isolamento carente, da inocência

Da maturidade prematura...
Como dói virar as páginas,
Dar fim ao que se quer deter!

Quanto mais lágrimas ávidas
De tinta e sangue o enredo captura
Mais versos fluem como éter.

(Planejo vinganças,
Reviravoltas no desfecho da minha história
Que me trariam o gosto do animal
Ferido no último ato!
Sabor de revanche.
Ou de derrota.)