Um cigano de violão lacrimoso,
De pernas nômades,
De terra de ninguém.
Um cigano que entre seus pares,
Na superfície, encarnava a personagem
Praticamente convencendo a si mesmo.
Um cigano de olhos de piche
Banhava-se em agonia
À espera de nem se sabe o quê,
Que o libertasse da dor e do desespero do não-pertencimento.
Um dia o cigano se apaixona
Por um jovem cego a palavras, conceitos e julgamentos,
Normas, limites ou proibições.
Esse jovem via apenas o poder da verdade,
Que o penetrava até os ossos como tatuagem
De sangue e tinta - Eterna, imutável, inexorável.
A liberdade de si amedrontava aos que viam,
Mas não enxergavam a música do abandono.
O cigano, no entanto, descobria paulatinamente
Que a cegueira não era do rapaz
Que gritava ao vento sobre as coisas do mundo
Fabricando imagens com seu corpo, fundindo-se ao todo
Ele recitava como uma poesia tudo que havia
Em si, na natureza e no homem, em Deus e na besta.
Os cegos eram os demais.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nachtens
Um dia, quando a escuridão houver encontrado a medida de si,
Não será mais vista com medo ou hesitação.
A eterna noite escura que nos abraça
É quase-manto, quase-útero, quase-colo.
Não há que ter medo da custosa visibilidade...
Não ver. Aguçar sentidos outros que não se deixam
lograr pela aparência fugaz das coisas.
Não ver. Enxergar com a alma,
Por palavras, melodias, odores e sensações;
Uma pertença integral ao seio do mundo.
Não há que ter medo do escuro...
A luz é apenas ilusão de verdade, ilusão de razão.
Onde está a verdade? A racionalidade consciente?
No ser humano? Não! Cerramos nossos animais selvagens
Em uma jaula de hipocrisia,
Muito bem guardada pelas convenções sociais.
Mas sempre há uma hora em que, exaustos da clausura,
As bestas se rebelam, e os primeiros - não primitivos -
eus vêm à tona, rompendo a crosta de civilidade
que os esconde, sem temer julgamentos ou reprimendas.
Noite é liberdade.
Não será mais vista com medo ou hesitação.
A eterna noite escura que nos abraça
É quase-manto, quase-útero, quase-colo.
Não há que ter medo da custosa visibilidade...
Não ver. Aguçar sentidos outros que não se deixam
lograr pela aparência fugaz das coisas.
Não ver. Enxergar com a alma,
Por palavras, melodias, odores e sensações;
Uma pertença integral ao seio do mundo.
Não há que ter medo do escuro...
A luz é apenas ilusão de verdade, ilusão de razão.
Onde está a verdade? A racionalidade consciente?
No ser humano? Não! Cerramos nossos animais selvagens
Em uma jaula de hipocrisia,
Muito bem guardada pelas convenções sociais.
Mas sempre há uma hora em que, exaustos da clausura,
As bestas se rebelam, e os primeiros - não primitivos -
eus vêm à tona, rompendo a crosta de civilidade
que os esconde, sem temer julgamentos ou reprimendas.
Noite é liberdade.
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