Um cigano de violão lacrimoso,
De pernas nômades,
De terra de ninguém.
Um cigano que entre seus pares,
Na superfície, encarnava a personagem
Praticamente convencendo a si mesmo.
Um cigano de olhos de piche
Banhava-se em agonia
À espera de nem se sabe o quê,
Que o libertasse da dor e do desespero do não-pertencimento.
Um dia o cigano se apaixona
Por um jovem cego a palavras, conceitos e julgamentos,
Normas, limites ou proibições.
Esse jovem via apenas o poder da verdade,
Que o penetrava até os ossos como tatuagem
De sangue e tinta - Eterna, imutável, inexorável.
A liberdade de si amedrontava aos que viam,
Mas não enxergavam a música do abandono.
O cigano, no entanto, descobria paulatinamente
Que a cegueira não era do rapaz
Que gritava ao vento sobre as coisas do mundo
Fabricando imagens com seu corpo, fundindo-se ao todo
Ele recitava como uma poesia tudo que havia
Em si, na natureza e no homem, em Deus e na besta.
Os cegos eram os demais.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
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