Eu me lembro de casa
Quando o chão tem cheiro de chuva
E a claridade sádica é de tal maneira invasora
Que fere os meus cachorros e a minha poltrona.
Eu me lembro de casa quando o outro
Me sufoca tanto que nem em meus próprios pensamentos
Estou só.
Quando a sombra da alteridade
Constantemente recobre as sensações que adornam o silêncio,
Regozijando-me em uma guerrilha renitente
Favorecida pelo tempo e pela educação.
Contudo, se pudesse escolher o cerne da identidade
Entre essa terra de gris, lâmina e caixas motoras
E a minha casa,
Seriam as palavras que vertem em vômito,
Frêmito de alma abandonada
Em multidão, abandonada por pai, mãe e Deus,
E que tem apenas as folhas e o sangue
Para se afogar em meio à tempestade.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Eu falo de ti, um pouco,
falo quando a saudade
suplica um sussurro rápido,
então pronuncio teu nome
como num suspiro.
Isso me faz crer que
estás ao meu lado,
respirando no meu cabelo
enquanto faço o jantar apoiada no teu peito.
Falo quando vejo o teu rosto
estampado nas imagens,
como se ao fazê-lo
risse contigo do momento
esponttâneo que registraste,
dando pequenos tapas de
admoestação - no fim
uma desculpa para te tocar.
Então pronuncio teu nome em meio
A um retorcer de lábios malicioso.
Falo de ti quando conto
A minha história, quando preciso narrar
os anos que me preencheste, todo
o drama e a paixão de um amor
impossível e sem sentido.
Como se recuperasse os momentos
em que nos odiamos,
nos ofendemos e nos redimimos
um nos braços do outro.
Então pronuncio teu nome em
um gemido pesaroso e lacrimejante.
falo quando a saudade
suplica um sussurro rápido,
então pronuncio teu nome
como num suspiro.
Isso me faz crer que
estás ao meu lado,
respirando no meu cabelo
enquanto faço o jantar apoiada no teu peito.
Falo quando vejo o teu rosto
estampado nas imagens,
como se ao fazê-lo
risse contigo do momento
esponttâneo que registraste,
dando pequenos tapas de
admoestação - no fim
uma desculpa para te tocar.
Então pronuncio teu nome em meio
A um retorcer de lábios malicioso.
Falo de ti quando conto
A minha história, quando preciso narrar
os anos que me preencheste, todo
o drama e a paixão de um amor
impossível e sem sentido.
Como se recuperasse os momentos
em que nos odiamos,
nos ofendemos e nos redimimos
um nos braços do outro.
Então pronuncio teu nome em
um gemido pesaroso e lacrimejante.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
El gitano
Um cigano de violão lacrimoso,
De pernas nômades,
De terra de ninguém.
Um cigano que entre seus pares,
Na superfície, encarnava a personagem
Praticamente convencendo a si mesmo.
Um cigano de olhos de piche
Banhava-se em agonia
À espera de nem se sabe o quê,
Que o libertasse da dor e do desespero do não-pertencimento.
Um dia o cigano se apaixona
Por um jovem cego a palavras, conceitos e julgamentos,
Normas, limites ou proibições.
Esse jovem via apenas o poder da verdade,
Que o penetrava até os ossos como tatuagem
De sangue e tinta - Eterna, imutável, inexorável.
A liberdade de si amedrontava aos que viam,
Mas não enxergavam a música do abandono.
O cigano, no entanto, descobria paulatinamente
Que a cegueira não era do rapaz
Que gritava ao vento sobre as coisas do mundo
Fabricando imagens com seu corpo, fundindo-se ao todo
Ele recitava como uma poesia tudo que havia
Em si, na natureza e no homem, em Deus e na besta.
Os cegos eram os demais.
De pernas nômades,
De terra de ninguém.
Um cigano que entre seus pares,
Na superfície, encarnava a personagem
Praticamente convencendo a si mesmo.
Um cigano de olhos de piche
Banhava-se em agonia
À espera de nem se sabe o quê,
Que o libertasse da dor e do desespero do não-pertencimento.
Um dia o cigano se apaixona
Por um jovem cego a palavras, conceitos e julgamentos,
Normas, limites ou proibições.
Esse jovem via apenas o poder da verdade,
Que o penetrava até os ossos como tatuagem
De sangue e tinta - Eterna, imutável, inexorável.
A liberdade de si amedrontava aos que viam,
Mas não enxergavam a música do abandono.
O cigano, no entanto, descobria paulatinamente
Que a cegueira não era do rapaz
Que gritava ao vento sobre as coisas do mundo
Fabricando imagens com seu corpo, fundindo-se ao todo
Ele recitava como uma poesia tudo que havia
Em si, na natureza e no homem, em Deus e na besta.
Os cegos eram os demais.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nachtens
Um dia, quando a escuridão houver encontrado a medida de si,
Não será mais vista com medo ou hesitação.
A eterna noite escura que nos abraça
É quase-manto, quase-útero, quase-colo.
Não há que ter medo da custosa visibilidade...
Não ver. Aguçar sentidos outros que não se deixam
lograr pela aparência fugaz das coisas.
Não ver. Enxergar com a alma,
Por palavras, melodias, odores e sensações;
Uma pertença integral ao seio do mundo.
Não há que ter medo do escuro...
A luz é apenas ilusão de verdade, ilusão de razão.
Onde está a verdade? A racionalidade consciente?
No ser humano? Não! Cerramos nossos animais selvagens
Em uma jaula de hipocrisia,
Muito bem guardada pelas convenções sociais.
Mas sempre há uma hora em que, exaustos da clausura,
As bestas se rebelam, e os primeiros - não primitivos -
eus vêm à tona, rompendo a crosta de civilidade
que os esconde, sem temer julgamentos ou reprimendas.
Noite é liberdade.
Não será mais vista com medo ou hesitação.
A eterna noite escura que nos abraça
É quase-manto, quase-útero, quase-colo.
Não há que ter medo da custosa visibilidade...
Não ver. Aguçar sentidos outros que não se deixam
lograr pela aparência fugaz das coisas.
Não ver. Enxergar com a alma,
Por palavras, melodias, odores e sensações;
Uma pertença integral ao seio do mundo.
Não há que ter medo do escuro...
A luz é apenas ilusão de verdade, ilusão de razão.
Onde está a verdade? A racionalidade consciente?
No ser humano? Não! Cerramos nossos animais selvagens
Em uma jaula de hipocrisia,
Muito bem guardada pelas convenções sociais.
Mas sempre há uma hora em que, exaustos da clausura,
As bestas se rebelam, e os primeiros - não primitivos -
eus vêm à tona, rompendo a crosta de civilidade
que os esconde, sem temer julgamentos ou reprimendas.
Noite é liberdade.
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