De novo o medo,
De novo a mágoa...
Mais um passo até o fim.
Vê-se o retorno de...
Do quê? Nada mais ficou além
Dos ossos, da carcaça.
Onde há perfil, eu sou a máscara;
Onde há caminho, eu sou vestígio.
De que adianta rir dos dias que chegarão,
Se eles te consomem com a inexorabilidade cruel,
Antropofágica do destino?
Abraça as rugas, os reumatismos,
Os resmungos e o rancor.
Pelo menos há uma escusa
Para desprezar os jovens
E ser favorecido nas filas.
Onde há celebração, eu sou o velório.
Arde tanto a tua chegada agonizante!
Inferno astral.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Ando até onde os pés me levam
e os braços alcançam.
Não há vontade de fazer os beijos
chegarem ao mar, ou as ondas partirem
o horizonte.
Há apenas a esperança de flutuar
pra longe, constante,
um prazer de balanço menino
que sussurra baixinho:
Aquieta-te. Estás segura no
seio da liberdade.
Eu vivi à margem do desejo, e
agora tudo que preciso é não desejar...
Estar bem vinda nesta ilha infinita.
Estou só e dona do meu suspiro -
É o que me basta.
e os braços alcançam.
Não há vontade de fazer os beijos
chegarem ao mar, ou as ondas partirem
o horizonte.
Há apenas a esperança de flutuar
pra longe, constante,
um prazer de balanço menino
que sussurra baixinho:
Aquieta-te. Estás segura no
seio da liberdade.
Eu vivi à margem do desejo, e
agora tudo que preciso é não desejar...
Estar bem vinda nesta ilha infinita.
Estou só e dona do meu suspiro -
É o que me basta.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Tomei um café amargo,
Preto de borra, birra e
Beijos não dados, telefonemas esquecidos.
Faz bem cortar a candura
De vez em quando, pra se aprender
Que doar é perder sem contrapartida.
Não mais te pertence nem a expectativa
De gratidão.
É. do. ar.
Quente é o bálsamo que
Protege, acalenta o longo caminho
Que separa o outro.
Útero negro de mínima preservação
Da sanidade.
Divórcio da humanidade.
Óleo difuso que, conveniente,
Encobre verdades, vícios,
E se alastra pelos males,
Enevoando a nudez incômoda da alma.
Às vezes faz bem cortar o açúcar
E a doçura.
Preto de borra, birra e
Beijos não dados, telefonemas esquecidos.
Faz bem cortar a candura
De vez em quando, pra se aprender
Que doar é perder sem contrapartida.
Não mais te pertence nem a expectativa
De gratidão.
É. do. ar.
Quente é o bálsamo que
Protege, acalenta o longo caminho
Que separa o outro.
Útero negro de mínima preservação
Da sanidade.
Divórcio da humanidade.
Óleo difuso que, conveniente,
Encobre verdades, vícios,
E se alastra pelos males,
Enevoando a nudez incômoda da alma.
Às vezes faz bem cortar o açúcar
E a doçura.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Doeu mais saber que já me esqueceste
Do que o fim do relacionamento atual.
Eu vi, é claro, dor e vaidade e ego,
E minhas esperanças de uma noite de estrelas.
Vinho, não nas taças, mas nos poros.
No entanto, o que eu realmente agaurdava
era o eterno pertencimento - Eu, a ti;
Tu, a mim,
Por mais que avançasse a distância,
Que multiplicassem os amantes,
Que se dilatassem as diferenças.
Hoje sou linda e me sinto feia,
Débil e mal quista
Não por efêmera paixão que se encerrou,
Mas por um eterno amor que se extinguiu.
Do que o fim do relacionamento atual.
Eu vi, é claro, dor e vaidade e ego,
E minhas esperanças de uma noite de estrelas.
Vinho, não nas taças, mas nos poros.
No entanto, o que eu realmente agaurdava
era o eterno pertencimento - Eu, a ti;
Tu, a mim,
Por mais que avançasse a distância,
Que multiplicassem os amantes,
Que se dilatassem as diferenças.
Hoje sou linda e me sinto feia,
Débil e mal quista
Não por efêmera paixão que se encerrou,
Mas por um eterno amor que se extinguiu.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Não sei o que sinto
Nem o que sentes.
Quanto mais construo
Laços de desejo e pertença
Mais te sinto afastar de
Mim, como se perseguisse
Um horizonte inalcançável.
A diferença, amor meu,
É que já estive a um braço
De distância do teu coração.
As palavras fluíam, apressadas,
Abastecidas pelo ardor do apaixonamento.
Mas as palavras, carinho, estas são
Ditas ao alto, e levadas pelo
Vento com a chegada do estio.
Tu as segues, meu bem,
Para regar mel em outro peito
Enquanto o meu já queda vazio.
Nem o que sentes.
Quanto mais construo
Laços de desejo e pertença
Mais te sinto afastar de
Mim, como se perseguisse
Um horizonte inalcançável.
A diferença, amor meu,
É que já estive a um braço
De distância do teu coração.
As palavras fluíam, apressadas,
Abastecidas pelo ardor do apaixonamento.
Mas as palavras, carinho, estas são
Ditas ao alto, e levadas pelo
Vento com a chegada do estio.
Tu as segues, meu bem,
Para regar mel em outro peito
Enquanto o meu já queda vazio.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Ela olhou a rua. Vazia. Branca como um cadáver de puta na madrugada. Segurava o choro firmemente, como mamãe tinha ensinado. Não daria esse gostinho ao cretino.
-E o que a gente faz com os móveis?, ele perguntou, desolado.
- Sei lá. Fica pra você. Ou queima. Não sou museu pra viver em história antiga. - Sem um pingo de emoção na voz, ela vomitava indiferença.
- Você vai jogar cinco anos fora assim, Lili? E tudo o que vivemos juntos? Tudo o que construímos, todos os momentos de gozo e ternura?
Silêncio. Lili olhava ainda a rua. Não tolerava mais a presença dele, a súplica dos olhos que seguiam cada reação dela, que imploravam por um arremedo de atenção.
-Esses momentos, Carlos, ficaram para trás. Nesses últimos meses o que alimentou nosso relacionamento foi ódio, distância, traição e cama vazia. Quem eu sou? Você não sabe quem eu sou. Cinco anos não é nada. A felicidade durou o tempo que conseguimos nos regozijar com as empatias e tolerar, ocultar, flexibilizar as antipatias. Mas há muito elas ganharam força e dominaram nosso leito. Vivemos sós, e dividimos esse espaço. Somos estranhos, estrangeiros e perdemos a vontade de nos re-conhecer, nascer de novo a cada um. Não usemos palavras doces para ocultar sentimentos ordinários. Somos nada um para o outro.
Silêncio.
As lágrimas contidas não são pela dor da separação, e sim por pena. Há tempos o sentimento agonizava, mas a constatação do fim de qualquer afeto foi tão súbita quanto melancólica.
Primeiro, veio a negação: Isso não estava acontecendo. Todo o relacionamento se desgastava. Bastava eles quererem para que tudo voltasse a ser como antes.
Segundo, veio a revolta: A culpa era dele. Não a olhava mais, não a via como mulher. Tinha perdido o caminho até seu colo, e apenas se acostumado com sua presença, como o velho criado mudo no canto do quarto. Via, mas não olhava.
Terceiro, veio a resignação: Tudo bem. Isso acontecia com todos. O mais importante era se comportarem como adultos e assumirem o fim. Sem qualquer culpado ou vítima.
Por fim, veio a pena. Ela reunia todas as outras fases, mas agregava algo fundamental: a inexorabilidade do fim lhe enchia os olhos - por todos os sorrisos, todas as agressões, todo o estranhamento e, mais do que tudo, pelo que poderia ter sido.
Tinha medo de como Carlos interpretaria essas lágrimas contidas. Tanto medo que mantinha distância do encontro de olhares - e do de almas. (Re) Encontro.
Podia ver um paralelepípedo. Pedrinhas brilhantes perdidas, desconsideradas. Pisoteadas, não sentidas. Tão ao alcance da vista, mas não ao toque.
Assim como a história dos dois. Longe, muito longe. Tão longe quanto o paralelepípedo. Tão brilhante. Não mais sentida.
-E o que a gente faz com os móveis?, ele perguntou, desolado.
- Sei lá. Fica pra você. Ou queima. Não sou museu pra viver em história antiga. - Sem um pingo de emoção na voz, ela vomitava indiferença.
- Você vai jogar cinco anos fora assim, Lili? E tudo o que vivemos juntos? Tudo o que construímos, todos os momentos de gozo e ternura?
Silêncio. Lili olhava ainda a rua. Não tolerava mais a presença dele, a súplica dos olhos que seguiam cada reação dela, que imploravam por um arremedo de atenção.
-Esses momentos, Carlos, ficaram para trás. Nesses últimos meses o que alimentou nosso relacionamento foi ódio, distância, traição e cama vazia. Quem eu sou? Você não sabe quem eu sou. Cinco anos não é nada. A felicidade durou o tempo que conseguimos nos regozijar com as empatias e tolerar, ocultar, flexibilizar as antipatias. Mas há muito elas ganharam força e dominaram nosso leito. Vivemos sós, e dividimos esse espaço. Somos estranhos, estrangeiros e perdemos a vontade de nos re-conhecer, nascer de novo a cada um. Não usemos palavras doces para ocultar sentimentos ordinários. Somos nada um para o outro.
Silêncio.
As lágrimas contidas não são pela dor da separação, e sim por pena. Há tempos o sentimento agonizava, mas a constatação do fim de qualquer afeto foi tão súbita quanto melancólica.
Primeiro, veio a negação: Isso não estava acontecendo. Todo o relacionamento se desgastava. Bastava eles quererem para que tudo voltasse a ser como antes.
Segundo, veio a revolta: A culpa era dele. Não a olhava mais, não a via como mulher. Tinha perdido o caminho até seu colo, e apenas se acostumado com sua presença, como o velho criado mudo no canto do quarto. Via, mas não olhava.
Terceiro, veio a resignação: Tudo bem. Isso acontecia com todos. O mais importante era se comportarem como adultos e assumirem o fim. Sem qualquer culpado ou vítima.
Por fim, veio a pena. Ela reunia todas as outras fases, mas agregava algo fundamental: a inexorabilidade do fim lhe enchia os olhos - por todos os sorrisos, todas as agressões, todo o estranhamento e, mais do que tudo, pelo que poderia ter sido.
Tinha medo de como Carlos interpretaria essas lágrimas contidas. Tanto medo que mantinha distância do encontro de olhares - e do de almas. (Re) Encontro.
Podia ver um paralelepípedo. Pedrinhas brilhantes perdidas, desconsideradas. Pisoteadas, não sentidas. Tão ao alcance da vista, mas não ao toque.
Assim como a história dos dois. Longe, muito longe. Tão longe quanto o paralelepípedo. Tão brilhante. Não mais sentida.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Antecipando
Ela acordou já preparada
Para desistir,
Como se fosse mártir
Mesmo antes do sacrifício.
Todas as circunstâncias,
As fatalidades,
Pareciam artifícios
Da roda da fortuna.
Verdades inexoráveis
Que invadem menores
Esperanças de um
Café quente, uma
Cadeira vazia no
Coletivo ou até
Um mísero olhar de
Desejo do seu grande
Objeto de atenção.
De que adianta lutar uma
Batalha já perdida, gastar
Energia no que já tem
Prazo de validade - como a vida?
Antes esperar o fim da linha
Sem mágoas, dores, corações partidos -
Sozinha.
Para desistir,
Como se fosse mártir
Mesmo antes do sacrifício.
Todas as circunstâncias,
As fatalidades,
Pareciam artifícios
Da roda da fortuna.
Verdades inexoráveis
Que invadem menores
Esperanças de um
Café quente, uma
Cadeira vazia no
Coletivo ou até
Um mísero olhar de
Desejo do seu grande
Objeto de atenção.
De que adianta lutar uma
Batalha já perdida, gastar
Energia no que já tem
Prazo de validade - como a vida?
Antes esperar o fim da linha
Sem mágoas, dores, corações partidos -
Sozinha.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Metalinguagem
A escrita é um ofício solitário.
Refúgio para misantropos,
Antissociais e afins.
Acredito que palavras compreendam
O caos que guardo em mim
Palavras confidentes.
Ao expô-las sobre o tapete
De fibras vegetais, é como se
Se dispusessem conforme
Rio, choro, sinto
Palavras videntes.
Também são as únicas que
Me consolam e acariciam
Quando o medo do silêncio
E da ausência me paralisam, atormentam
Palavras amantes.
Refúgio para misantropos,
Antissociais e afins.
Acredito que palavras compreendam
O caos que guardo em mim
Palavras confidentes.
Ao expô-las sobre o tapete
De fibras vegetais, é como se
Se dispusessem conforme
Rio, choro, sinto
Palavras videntes.
Também são as únicas que
Me consolam e acariciam
Quando o medo do silêncio
E da ausência me paralisam, atormentam
Palavras amantes.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Sabe aquelas luvas que eu comprei?
Pois é, elas não me servem mais.
Talvez meus desejos tenham ficado
vagos demais, ou
impossíveis demais.
Ultimamente, nada me cabe na palma da mão -
Nem o pão que eu mesma amassei
(porque apenas minha expiração
Me acompanha).
Basta de buscar alguém que vá ao cinema comigo
Amante, mas também amigo.
Apenas luvas inúteis têm um par.
Pois é, elas não me servem mais.
Talvez meus desejos tenham ficado
vagos demais, ou
impossíveis demais.
Ultimamente, nada me cabe na palma da mão -
Nem o pão que eu mesma amassei
(porque apenas minha expiração
Me acompanha).
Basta de buscar alguém que vá ao cinema comigo
Amante, mas também amigo.
Apenas luvas inúteis têm um par.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
GACELA DE LA HUIDA
De Federico Garcia Lorca
Me he perdido muchas veces por el marcon
el oído lleno de flores recién cortadas,
con la lengua llena de amor y de agonía.
Muchas veces me he perdido por el mar,
como me pierdo en el corazón de algunos niños.
No hay noche que, al dar un beso,
no sienta la sonrisa de las gentes sin rostro,
ni hay nadie que, al tocar un recién nacido,
olvide las inmóviles calaveras de caballo.
Porque las rosas buscan en la frente
un duro paisaje de hueso y
las manos del hombre no tienen más sentido
que imitar a las raíces bajo tierra.
Como me pierdo en el corazón de algunos niños,
me he perdido muchas veces por el mar.
Ignorante del agua voy buscando
una muerte de luz que me consuma.
Me he perdido muchas veces por el marcon
el oído lleno de flores recién cortadas,
con la lengua llena de amor y de agonía.
Muchas veces me he perdido por el mar,
como me pierdo en el corazón de algunos niños.
No hay noche que, al dar un beso,
no sienta la sonrisa de las gentes sin rostro,
ni hay nadie que, al tocar un recién nacido,
olvide las inmóviles calaveras de caballo.
Porque las rosas buscan en la frente
un duro paisaje de hueso y
las manos del hombre no tienen más sentido
que imitar a las raíces bajo tierra.
Como me pierdo en el corazón de algunos niños,
me he perdido muchas veces por el mar.
Ignorante del agua voy buscando
una muerte de luz que me consuma.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Alvorada
Eu te vi pela janela,
Invadindo o silêncio da casa e
Entrando sorrateiro.
Sem pedir licença, invades
Os meus lençóis,
Calando os delírios febris marcados
No travesseiro.
Eu te renego, repudio,
Clamando as horas perdidas do ócio;
Tu, inexorável, manténs
Constante tropel.
Chegada a hora de partires,
Absorvido por braços alvos
E véus sombrios,
Eu me regozijo
E rio da perda do teu viço.
No entanto, paciente,
Esperas a hora da vendita
E da vida nova:
Mais uma vez renasces das cinzas
Com fogo e luz crescente
É vaga de encontro ao mar -
Redesabrochar
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
A beleza da crueldade
Aproxima-se, como um
Aroma perdidoconduzido
Pela brisa:
Atrai os sentidos, inflama as paixões,
Conduz a memória ao esquecimento.
A ameaça predadora
É ignorada
Porque o convite se faz
Oblíquo, dúbio -
Nada denuncia a dissimulação.
O que se vê é apenas o desejo,
A fome que mente e engana...
Pois se em fantasia seu corpo
É coroado de beijos,
O pesadelo se concretiza:
Antecipa a carne lacerada,
Morta, podre, fria.
Aproxima-se, como um
Aroma perdidoconduzido
Pela brisa:
Atrai os sentidos, inflama as paixões,
Conduz a memória ao esquecimento.
A ameaça predadora
É ignorada
Porque o convite se faz
Oblíquo, dúbio -
Nada denuncia a dissimulação.
O que se vê é apenas o desejo,
A fome que mente e engana...
Pois se em fantasia seu corpo
É coroado de beijos,
O pesadelo se concretiza:
Antecipa a carne lacerada,
Morta, podre, fria.
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