segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ela olhou a rua. Vazia. Branca como um cadáver de puta na madrugada. Segurava o choro firmemente, como mamãe tinha ensinado. Não daria esse gostinho ao cretino.

-E o que a gente faz com os móveis?, ele perguntou, desolado.
- Sei lá. Fica pra você. Ou queima. Não sou museu pra viver em história antiga. - Sem um pingo de emoção na voz, ela vomitava indiferença.
- Você vai jogar cinco anos fora assim, Lili? E tudo o que vivemos juntos? Tudo o que construímos, todos os momentos de gozo e ternura?

Silêncio. Lili olhava ainda a rua. Não tolerava mais a presença dele, a súplica dos olhos que seguiam cada reação dela, que imploravam por um arremedo de atenção.

-Esses momentos, Carlos, ficaram para trás. Nesses últimos meses o que alimentou nosso relacionamento foi ódio, distância, traição e cama vazia. Quem eu sou? Você não sabe quem eu sou. Cinco anos não é nada. A felicidade durou o tempo que conseguimos nos regozijar com as empatias e tolerar, ocultar, flexibilizar as antipatias. Mas há muito elas ganharam força e dominaram nosso leito. Vivemos sós, e dividimos esse espaço. Somos estranhos, estrangeiros e perdemos a vontade de nos re-conhecer, nascer de novo a cada um. Não usemos palavras doces para ocultar sentimentos ordinários. Somos nada um para o outro.

Silêncio.

As lágrimas contidas não são pela dor da separação, e sim por pena. Há tempos o sentimento agonizava, mas a constatação do fim de qualquer afeto foi tão súbita quanto melancólica.

Primeiro, veio a negação: Isso não estava acontecendo. Todo o relacionamento se desgastava. Bastava eles quererem para que tudo voltasse a ser como antes.

Segundo, veio a revolta: A culpa era dele. Não a olhava mais, não a via como mulher. Tinha perdido o caminho até seu colo, e apenas se acostumado com sua presença, como o velho criado mudo no canto do quarto. Via, mas não olhava.

Terceiro, veio a resignação: Tudo bem. Isso acontecia com todos. O mais importante era se comportarem como adultos e assumirem o fim. Sem qualquer culpado ou vítima.

Por fim, veio a pena. Ela reunia todas as outras fases, mas agregava algo fundamental: a inexorabilidade do fim lhe enchia os olhos - por todos os sorrisos, todas as agressões, todo o estranhamento e, mais do que tudo, pelo que poderia ter sido.

Tinha medo de como Carlos interpretaria essas lágrimas contidas. Tanto medo que mantinha distância do encontro de olhares - e do de almas. (Re) Encontro.

Podia ver um paralelepípedo. Pedrinhas brilhantes perdidas, desconsideradas. Pisoteadas, não sentidas. Tão ao alcance da vista, mas não ao toque.

Assim como a história dos dois. Longe, muito longe. Tão longe quanto o paralelepípedo. Tão brilhante. Não mais sentida.

Um comentário:

Clara Lemos disse...

Fim é isso mesmo.

Dói demais quando se está indo, mas quando se finalmente vai, é melhor ir sem nada. Guardar qualquer coisa é só cultivar mofo.