A sobriedade me dá a certeza de que não sou o que devia (ou gostaria de) ser.
Eu poderia plantar facetas, cultivar aspectos de uma personalidade única. Ler, ver, saber mais. Atingir a singularidade tranquila. Mas eu sei que nunca vou abranger o conhecimento infinito, e isso seria aceitável se o comum fosse suficiente.
Assim como muitos, eu almejo valores do senso comum - instituições notoriamente falidas mas mantidas pela fé e pelo hábito. Mas quem não tiver o mínimo de autoconsciência - ou seria autocrítica? - nunca aceitaria ser mais um boi no pasto, um código de barras, um produto de fabricação em série. A existência transitória que não deixa marcas não será relevante ou contributiva em nenhum aspecto.
A sensação de desprezo em aceitar ser a média, ser razoável, ser comum é tão patente que me fere todos os dias. E nessa angústia, nesse dilema entre o comum e o único, entre ser como todos e ser única, eu não sou NADA. Eu não existo.
Abstraio a idéia do ser, a situo em um canto escuro de mim. Bastar, é isso. Não sou menor nem maior, porque EU NÃO SOU. O meu sentido está em desprezar as conquistas e enaltecer os desafios. Por isso o que eu tenho, e o que me tornei NÃO É NADA.
Por outro lado, o que almejo e o que virei a ser é um paradigma. Acredito ser por isso extremamente necessário me ocupar pelo máximo de tempo possível. Assim não há espaço no meu dia para refletir sobre a minha insignificância e o meu fracasso em ser pessoa. Não fui capaz de sê-lo. Talvez um espírito em potencial, mas sempre em potencial. Nunca completo.
Não consigo construir personalidades para preencher meu vazio existencial, e muito menos aceito um modelo pré-concebido - no máximo, o empresto ocasionalmente.
Acabo sendo eternamente um zero, por desejar tão intensamente o infinito. Zero não é número.
Eu não gostaria de ser dirigida pela estupidez da mecânica, mas é ela que me mantém sã. Eu não amo nem odeio a vida, porque dela não faço parte. O que tenho são arremedos de momentos repetidos e continuados, como uma fita que acaba e é novamente reproduzida. Sempre a mesma sucessão de acontecimentos vazios, mas infinitos. Impessoais, mas necessários à ilusão de existência.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
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